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Pai conduz filha cadeirante à faculdade desde o 1º dia de aula

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Olhar cansado, uma fala mansa e uma postura que passa tranquilidade. José Alcione Bezerra, mais conhecido como ‘Seu Bezerra’, é figura de destaque no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Acre (Ufac). Há quatro anos, ele acompanha sua filha, Naliny Arantes, na vida acadêmica. É comum passar pelos corredores do curso e vê-lo sentado sempre envolvido em uma boa conversa, seja com alunos ou com os funcionários da faculdade.

Desde criança, Naliny diz que se sentia muito mal. “Minha mãe contava que eu chorava muito, me levaram ao médico, mas nunca conseguiram diagnosticar o que eu tinha”. Aos 17 anos, o problema se agravou e ela teve uma forte crise de vômitos que durou 7 dias. Após o ocorrido, a estudante foi encaminhada para Brasília e lá diagnosticaram refluxo. Receitaram alguns remédios que não faziam o efeito esperado e, somente em Manaus, Naliny conseguiu o tratamento adequado para o problema.

Porém, a demora no tratamento e as constantes naúseas que a impediam de se alimentar acabaram fazendo com que ela fosse perdendo as forças nos membros inferiores, causando um problema chamado atrofia espinhal 3 e aos 20 anos, Naliny parou de andar. “Parei de andar por causa dos quatro anos internada. Eu ficava deitada tomando remédio e sem comer nada, eu sentia muitas náuseas por conta do refluxo. Cheguei a ter uma parada cardiorespiratória, me colocaram às pressas em um avião para Manaus e lá me passaram uma medicação e nunca mais senti nada”, lembra.

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Com a mobilidade reduzida, Naliny conta que entrou em depressão e buscou maneiras de se manter motivada. “Pensei que fosse morrer de desgosto. Procurei apoio em aulas de pintura e depois que melhorei, juntei meu material do ensino médio e comecei a estudar sozinha no meu quarto. Meu pai comprou um bom notebook e estudei pela internet em um curso pré-vestibular online à distância”, conta emocionada.

Bezerra trabalhou por 26 anos no Exército em Rio Branco e ele faz questão de lembrar o suporte que o Exército deu para o tratamento de sua filha. “O Exército sempre deu apoio nas viagens que tivemos que fazer com ela por conta da doença”. Aposentado em 2011, ele ressalta que somente com o apoio do Exército conseguiu as viagens para o tratamento de Naliny.

O recomeço e o apoio do pai

“Meu pai foi o maior presente que Deus me deu”. Assim Naliny começa falando sobre o seu recomeço. “Quando vi meu nome na lista de aprovados da Ufac, chorei, liguei para o meu pai e ele também se emocionou”. Naquele dia, tanto a estudante, quanto o pai começavam a escrever uma nova história.

Bezerra passou a acompanhar a filha desde o primeiro dia de aula. Ele a leva e fica esperando a aula terminar, sempre sentado próximo à sala de aula. “Ela tem vontade de ser alguém na vida, de ser uma profissional. Para mim, a deficiência não é barreira para que ela cresça na vida e seja feliz”, explica.

Os primeiros períodos na universidade não foram fáceis, por necessidade, Bezerra levava Naliny de moto. “Eu tinha muito medo, porque sei que não é o certo. Porém, não era escolha, era necessidade mesmo. Hoje, conquistamos nosso carro, mas foram coisas que adquirimos aos poucos”, lembra.

Naliny termina a faculdade no fim deste ano, o diploma não cria expectativas somente na estudante, mas também em seu pai. Ao falar sobre o dia que sua filha terminará o curso, ele conserva um riso discreto e um ar de satisfação e orgulho. “Vai ser uma grande alegria para mim, para ela e para as pessoas que, por alguma dificuldade, pensam em desistir do que querem. A gente tem que encarar a dificuldade como um problema que pode ser resolvido “, diz.

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Sobre a responsabilidade de pai, ele é enfático ao afirmar que tanto o pai como a mãe devem se responsabilizar por seus filhos. “Os pais têm que dar apoio aos seus filhos. Se Deus colocou ela na minha vida, eu tenho que cuidar dela e nunca fugir ou me deixar abater por qualquer problema que seja”, diz.

Bezerra ressalta que tudo que Naliny conquistou até agora é mérito da própria estudante. Sobre o preconceito em relação às pessoas com deficiência física, ele garante que é um pensamento arcaico. “Ela estuda e trabalha. Se chegou até aqui é porque tem capacidade, como qualquer pessoa e ela vai se tornar uma ótima profissional. Deus está do nosso lado e nunca vai nos abandonar”.

Para ele, sua recompensa é ver a filha feliz e realizada. “Eu agradeço a Deus por ter colocado ela na minha vida, é uma pessoal especial pra mim. Vou estar sempre ao lado dela, orando e pedindo a Deus e, assim, sei que tudo vai dar certo e ela vai ser feliz”, finaliza.

Para Maria das Graças, mulher de Bezerra, a postura do marido é um verdadeiro exemplo de luta, amor e dedicação. “Ela nunca deixou de fazer nada, ele sempre está com ela. Nunca ouvi ele reclamando de cansaço ou doença. Sempre ao lado dela”, diz.

Sobre as dificuldades da família, Maria das Graças é otimista e também deixa transparecer um sentimento de dever cumprido. “Não tem vitória sem luta. Nossa recompensa é vê-la conquistando o que sempre quis, estudando e sendo uma boa profissional. Tudo é mérito dela, nós oferecemos o apoio e o suporte e ela conquistou tudo que possui pelo seu próprio esforço”.

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Naliny se emociona ao falar do pai e o define como um companheiro que está ao seu lado em todos os momentos. “Um pai, um amigo, um enviado de Deus para cuidar de mim nesse mundo tão cheio de preconceito e pessoas egoístas. Ele nem imagina o quanto é importante pra mim”, comenta sobre o seu pai.

Fama

Enquanto dá entrevista no corredor da faculdade, é comum os alunos passarem e cumprimentarem Bezerra. Ele se tornou uma figura constante e famosa no curso. Sobre o reconhecimento, ele brinca. “Já me acostumei, acho muito bom. Como dizem, quem não é visto, não é lembrado”.

Os alunos definem a garra de Bezerra. Para Bruno Rocha, estudante de jornalismo, ele “é um exemplo não somente de pai, mas de cidadão, pois sua força de vontade em apoiar a filha é notável. Durante quatro anos acompanhando a rotina da Naliny, é inspirador e motivou muitos a não desistirem de seguir o curso”, garante.

“Poucos têm a oportunidade de acompanhar tão de perto os filhos como ele acompanha a Naliny. Para ela, ter ele por perto influencia positivamente a vida dela, tanto pessoal como profissionalmente”, comenta Stael Maia, estudante do curso de jornalismo.
Para Taiane Lima, ele é um super pai que abdicou da sua vida para acompanhar de perto sua filha. “Ele é um exemplo de amor e superação”, diz.

A dedicação de Bezerra já inspira outros alunos que querem se espelhar em seu exemplo. Joabes Guedes, prestes a ser pai, declara: “Acho que ser pai não é somente colocar no mundo. É estar presente participar da vida do filho mesmo que isso signifique abrir mão de sossego, tempo, dinheiro. Desde que o conheci vejo a dedicação dele pela filha. Acompanha todos os passos dela. É o espelho do pai que eu quero ser um dia”.

Já para Hellen Diane ele lembra amor. “É um amor tão grande que não precisa nem ser dito, só de olhar para ele percebe-se o quanto ele a ama. Um exemplo de pai e de pessoa. Um ser humano exemplar”, disse.

O estudante e jornalista Wesley Moraes resume a admiração por pai e filha. “Admiro a força de vontade da filha e a determinação do pai em estar presente ali todos os dias. Se depender dele, ela não falta jamais. Ele é o típico paizão coruja e exemplo para muitos estudantes do curso”, finaliza.

 

G1

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