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Prótese inédita no mundo devolve dança à bailarina

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O médico André Carvalho mostra estudo da peça feito em computador: primeira do tipo fabricada em Campinas

Janaína Ribeiro/AAN

A primeira prótese feita em formato de um pé de bailarina foi produzida na última semana em Campinas pelo médico fisioterapeuta e ortoprotesista André Carvalho. A ex-bailarina Melina Reis, hoje com 31 anos, sofreu uma fratura exposta de terceiro grau na perna esquerda após um acidente com motocicleta no ano de 2002. A amputação transtibial (abaixo do joelho) só aconteceu de fato em outubro de 2014.

Desde o acidente, ela ficou impossibilitada de voltar a dançar balé, atividade que fazia desde os 13 anos. “Sempre foi um sonho meu voltar a usar sapatilha de ponta, então conversei com o dr. André e ele aceitou o desafio de produzir a peça, mesmo sem ter nada na literatura em relação a esse tipo de prótese”, afirma Melina.

Um molde de gesso do pé da bailarina foi feito e projetado para o outro pé amputado. A prótese de 250 gramas, em média, foi feita com estudos de alinhamento, já que a base do pé é feita a partir da parte detrás do tornozelo, que serve de apoio para a montagem da peça, para que o peso fique equilibrado para a ponta da sapatilha. A produção demorou cerca de quatro semanas e foi feita no próprio consultório em Campinas. “Abriram as possibilidades para pessoas amputadas, que antes faziam essa atividade por lazer, voltarem a usar a sapatilha e praticar o balé. É uma possibilidade de uma ex-bailarina voltar a dançar”, afirmou o médico. A prótese ainda está em fase de teste por Melina para ajuste com suas necessidades. Faltam o acabamento e a última laminação. “A sensação é inexplicável, pois é uma mistura de sensações. É como se eu estivesse em um sonho. Há 13 anos que penso neste momento e agora eu e o dr. André estamos em fase de estabilizar o joelho, que é onde sinto maiores dificuldades. O pé está perfeito, porém, preciso de muito treino para me adaptar ao novo jeito de dançar”, comemora a bailarina.

Carvalho é referência no País na área de prótese por ser o primeiro a publicar livro no Brasil sobre o assunto, tem doutorado em cirurgia da amputação pela Unicamp e é fundador do Instituto de Prótese e Órtese IPO, que cuida de amputados, entre os quais muitos se tornaram atletas. “A preocupação é atender às necessidades específicas de cada usuário, não é uma loja de próteses. Cada caso é uma projeção”, afirmou. Muitos pacientes têm uma qualidade de vida melhor após a amputação.

Segundo o médico especialista, deve existir uma queda de paradigmas já que a amputação resgata a função para que a pessoa volte o mais próximo do normal. O médico disse que é comum os pacientes dizerem que após a cirurgia voltam a ter qualidade de vida, já que muitas vezes manter um membro do corpo vítima de alguma sequela, seja por doença ou acidente custe mais ao paciente. A variedade de próteses com alta tecnologia são diversas e vai de pés de fibra de carbono que reproduzem o que o pé humano faz, joelhos eletrônicos que permitem que o paciente caminhe de forma natural e segura a mãos biônicas que permitem o movimento em todas as articulação das mãos. Os custos variam entre R$ 25 mil e R$ 40 mil para próteses esportivas, e de R$ 15 mil a R$ 20 mil as de uso diário.

O pé de bailarina não teve custos por ser um estudo de caso, um projeto científico para permitir que Melina possa novamente dançar na ponta dos pés. Ainda não está sendo comercializado. Um outro dispositivo que está em discussão, mas ainda não foi produzido pelo IPO, é uma prótese de membro superior para que um ciclista de mountain bike possa ativar as funções no guidão. “Gosto de desafios. Quando alguém chega com uma proposta diferente a gente senta, estuda, projeta. Acho que nada é impossível”, disse Carvalho.

CONCEITOS ERRADOS

– Toda prótese machuca, é necessário um tempo para adaptação e para calejar. (não é diferente de uma prótese dentária, que não pode ficar frouxa nem machucar a boca de quem usa).

– Uma boa prótese é a que tem bons componentes de alta tecnologia. (pode se ter uma prótese simples, mas que bem adaptada ao corpo tem uma melhor resposta).

– O amputado é um coitado. (muitos dos meus pacientes se transformaram em grandes atletas olímpicos após a amputação)

Fonte: http://correio.rac.com.br/